Benedito Ruy Barbosa foi autor com ‘A’ maiúsculo

08/07/2026 | Folha de S.Paulo

Na estruturação do departamento de teledramaturgia da Globo, ao longo das décadas de 1970 e 1980, Daniel Filho e Boni tiveram a sabedoria de arregimentar autores com perfis e estilos muito diferentes entre si. Com o tempo, o espectador aprendeu a identificar sozinho, com base em características e traços do que via na tela pequena, quem era o autor de cada novela.
Leia mais (07/07/2026 – 12h33)

Benedito Ruy Barbosa, que morreu neste 7 de julho de 2026, aos 95 anos, faz parte de uma tropa de elite que, entre as décadas de 1970 e 1990, colocou a teledramaturgia da Globo num novo patamar. Com altos e baixos, mas num nível sempre acima da média, esses autores deram um novo status ao melodrama.

As marcas da contribuição de Benedito são bem conhecidas: grandes sagas familiares, heróis e heroínas destemidos, histórias ambientadas em áreas inóspitas, frequentemente na zona rural do país, altas doses de religiosidade, misticismo e muita imaginação. “O meu universo é o Brasil”, resumiu ele certa vez.

A enorme obra de Benedito inclui, entre outras novelas com essas características, Os Imigrantes, O Rei do Gado, Terra Nostra, Velho Chico e Meu Pedacinho de Chão, esta última na encantadora versão refeita por Luiz Fernando Carvalho em 2014.

Os remakes de Pantanal e Renascer na década de 2020 ajudaram a dar a autor, já nonagenário, o reconhecimento por parte de um novo público. Exibida originalmente em 1993, Renascer nasceu de pesquisas de Benedito no sul da Bahia. Ele dizia que reproduziu quase literalmente histórias que ouviu o povo contar.

O protagonista José Inocêncio é inspirado num causo que ouviu sobre “seu Firmo”, um fazendeiro que teria dividido suas terras entre sete filhos e, acreditando na proteção do capeta, guardava o diabo numa garrafa.

Benedito afirma que conversou com um homem conhecido como “seu Visita”, um matador de aluguel então aposentado, que teria recebido dinheiro para assassinar “seu Firmo”, mas acabou se aliando a ele, e reproduziu esta história na novela.

Tanto José Inocêncio quanto José Leôncio, de Pantanal, são heróis imperfeitos, com falhas gritantes de caráter, uma característica que atenua o maniqueísmo dos dois folhetins.

Na época da estreia do remake, escrevi:

Nunca foi tão complicado escolher o que mostrar no horário nobre. Enquanto põe um pé na canoa do streaming, a Globo sabe que a novela das nove ainda é o maior agregador de audiência do país, com tudo o que isso implica para os negócios. Curtindo a aposentadoria, o velho Benedito deve estar dando um sorriso.

Alguns textos que escrevi sobre Benedito Ruy Barbosa nos últimos anos

Minha coluna de hoje na Folha
Benedito Ruy Barbosa foi autor com ‘A’ maiúsculo

Sobre Renascer
Deus e o diabo na TV brasileira

Sobre Pantanal
Remake de ‘Pantanal’ na Globo mostra busca pela era de ouro das novelas

Sobre Velho Chico
‘Velho Chico’ marcou pela ambição estética e a relevância cultural

Sobre Meu Pedacinho de Chão
“Meu Pedacinho do Chão” fugiu do óbvio, surpreendeu e encantou

Entrevista que fiz com Benedito em 2016, na qual critica Silvio de Abreu
Na minha novela o Silvio de Abreu não põe a mão, diz Benedito Ruy Barbosa

Matéria em que Benedito explica por que brigou Walcyr Carrasco
Por que, dez anos depois, autores ainda brigam por causa de Esperança