Minha lista das dez melhores séries e novelas de 2025
A Folha me pediu uma lista das cinco melhores séries e/ou novelas do ano. A enquete do jornal, com a participação do time de críticos e repórteres da Ilustrada, foi publicada nesta segunda-feira (22). Ao levantar as melhores produções do ano, acabei fazendo uma lista com dez programas. Foram esses os meus preferidos:
1 – Guerreiros do Sol (Globoplay): Num ano difícil em matéria de teledramaturgia na TV aberta, a Globo escalou para a plataforma de streaming uma novela com cara de série. Criada e escrita por George Moura e Sergio Goldenberg, com direção e fotografia impecáveis, elenco de alto nível, a obra desmonta a imagem romântica, que se tornou clichê, de um Lampião que roubava dos ricos para dar aos pobres ou do cangaceiro que agia em resposta às injustiças dos coronéis. A novela aborda temas espinhosos que espelham a contemporaneidade, como machismo, assédio sexual, sororidade feminina, ignorância científica e o uso heterodoxo da religião para justificar atos de violência. É o cangaço brasileiro como poucas vezes visto.
2 – Homens sem Lei (A&E) – Se uma cidade se define pela história de seus crimes, como diz o escritor Alberto Mussa, o Rio de Janeiro se explica pela morte de Cara de Cavalo, em outubro de 1964. A reconstituição do crime e os seus muitos desdobramentos são um dos pontos altos desta excelente série documental. Com direção de José Tapajós e roteiro de Bruno Paes Manso, Flavia Kamenetz, Gabriel Priolli e o próprio Tapajós, a série mostra as raízes do chamado Esquadrão da Morte, no Rio, e discute de forma aberta o papel da mídia na cobertura policial.
3 – Pablo & Luisão (Globoplay) – Paulo Vieira é o maior fenômeno do humor surgido na TV aberta na última década no Brasil e esta série, criada por ele, apenas reafirma o seu talento excepcional. Em 16 episódios de 25 minutos, descreve as aventuras desastradas do pai do comediante e de seu melhor amigo. Paulo traz um olhar naturalmente amoroso e crítico sobre os mais pobres e ri com muita sabedoria da elite, incluindo a própria Globo. Ailton Graça, Otavio Muller e Dira Paes, todos ótimos, formam o trio principal.
4 – Mussolini – O Filho do Século (Mubi) – Série em oito episódios que narra a trajetória de Benito Mussolini como líder do fascismo na Itália. Com direção de Joe Wright, traz Luca Marinelli em caracterização excepcional do protagonista. “Sou como um animal, farejo os tempos futuros. E este é o meu tempo. Este é o meu povo. Precisam de homens fortes e ideias simples”, diz. Wright acerta ao evitar o didatismo e se arrisca com uma narrativa pouco convencional, que até assume um ar teatral.
5 – DNA do Crime 2 (Netflix) – A segunda temporada da série de Heitor Dhalia sobre ações da Polícia Federal na chamada Tríplice Fronteira mantém a qualidade da primeira, com bons personagens, ótimos intérpretes e, importante destacar, roteiro não reverente à PF. Esta série estabeleceu um novo padrão no Brasil em matéria de cenas de ação.
6 – O Lendário Martin Scorsese (Apple TV+) – A diretora Rebecca Miller revê a brilhante trajetória do cineasta em cinco episódios, tendo por base uma longa entrevista com o seu protagonista. Também são ouvidos Robert de Niro, Steven Spielberg, Spike Lee, além de amigos de juventude e familiares. A série se enquadra no formato “tributo”, e não esconde isso — é uma celebração da carreira de Scorsese. Porém, não evita temas delicados, como o seu envolvimento com drogas pesadas, relacionamentos amorosos que não terminaram bem, sem falar nos filmes que não alcançaram o sucesso esperado.
7 – Chico Anysio: um Homem à Procura de um Personagem (Globoplay) – Não é pequeno o desafio de resumir a carreira e a vida de Chico Anysio (1931-2012) em cinco episódios de 45 minutos. A difícil tarefa coube a um de seus filhos, o comediante Bruno Mazzeo, que optou por fazer um merecido tributo, mas sem abrir mão de apontar erros e atitudes questionáveis na trajetória do humorista genial. Em primeira pessoa, Mazzeo afirma que a série documental do Globoplay é também a tentativa de um resgate, de juntar as peças de um quebra-cabeça. “Um filho em busca do seu pai”, diz.
8 – Pssica (Netflix) – Adaptação do romance do escritor paraense Edyr Augusto, publicado originalmente em 2015, “Pssica” foi uma das melhores produções brasileiras da Netflix este ano. A série descreve um universo de violência, miséria, exploração sexual de menores e corrupção na região amazônica, incluindo uma passagem importante na Guiana. Dirigida por Quico Meirelles e Fernando Meirelles, com roteiro de Bráulio Mantovani, Fernando Garrido e Stephanie Degreas, a série em quatro episódios tem momentos eletrizantes, passagens dolorosas e sequências de pura fantasia. Tão importante quanto a história são a geografia e a paisagem pouco comuns que a produção oferece ao espectador.
9 – Hacks (HBO Max) – A exibição da quarta temporada confirma o lugar de “Hacks” entre as séries de humor da TV americana que não desistiram de provocar o espectador e remar numa direção diferente das comédias “do bem”, como “Ted Lasso” e “Falando a Real”. Centrada na complicada relação entre duas mulheres, uma veterana comediante e uma jovem roteirista, “Hacks” segue a trilha do humor ácido, expondo incansavelmente os defeitos das suas protagonistas e rindo da indústria do entretenimento americano. Em particular, nesta temporada, o alvo é o universo dos talk shows.
10 – Ângela Diniz, assassinada e condenada (HBO Max) – Livremente inspirada no podcast “Praia dos Ossos”, da Rádio Novelo, a minissérie adota um ponto de vista crítico já no título. Escrita por Elena Soárez e dirigida por Andrucha Waddington, tenta dar conta da complexidade de uma personagem que, como diz o letreiro de abertura, “era linda, livre, louca. Ou era isso que diziam. E ser tudo isso, nos anos 70, era perigoso”. Com Marjorie Estiano excepcional como protagonista, um excelente elenco ao redor e boa reconstituição de época, a minissérie narra, de forma bem atraente, uma história profundamente triste.